4 fev - 15 mar 2020

Curadoria Hernani Heffner Lei de Incentivo à Cultura Co-realização: Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Embaixada da Itália no Brasil, Consulado Geral da Itália no Rio de Janeiro, Instituto Italiano de Cultura do Rio de Janeiro, Vivere All´Italiana, Fellini 100 Rimini 1920 2020, Regione Emilia-Romagna, Regione Emilia-Romagna Cultura D'Europa, Centro Cinema Cittá di Cesena Mantenedores do MAM Rio: Itaú, Ternium e Petrobras Realização: Secretaria Especial da Cultura, Ministério da Cidadania, Governo Federal

Rostos Fellinianos

O núcleo desta exposição é composto de uma seleção de fotografias oriundas da Coleção Antonio Maraldi, dedicada ao acervo de Paul Ronald (1924–2015), o fotógrafo de cena que trabalhou na produção do longa-metragem 8 ½, realizado em 1962 pelo diretor italiano Federico Fellini (1920–1993). Em parceria com a Embaixada da Itália no Brasil, o Consulado da Itália no Rio de Janeiro, e o Instituto Italiano de Cultura do Rio de Janeiro, a Cinemateca presta sua homenagem ao Mestre de Rimini, apresentando também mais algumas imagens de seu próprio acervo, o que proporciona um panorama da galeria de atores e tipos mais destacados da iconografia felliniana.

A definição de intérprete masculino ou feminino para Fellini é bastante conhecida: “o ator é (uma máscara) que não deve denunciar imediatamente a personagem”. Como elemento em potência da arquitetura de construção de um filme, sua chave de composição é, em verdade, um segredo que vai se desvelando aos poucos, com o correr do filme, à medida que o titereiro resolve mostrar a face da personagem, e mais do que isso, o que a mobiliza de fato, quando não também, dos anos 1960 em diante, o arquétipo que ela encarna. Trata-se, portanto, da resolução de um mistério.

Mistério, porque o ator esconde algo, que só vai revelar aos poucos e de certa maneira. Estamos longe de uma concepção de “interioridade”, psicologia, biografia da personagem. Ela vale menos por uma história de vida, uma determinada condição e especificação, do que por uma retórica inscrita em um conjunto de características corporais e de gestos desenhados na cena pelo cineasta. Ao preterir o uso do som durante as filmagens, Fellini tinha liberdade para falar com os atores o tempo todo, como na época do cinema silencioso. Gesticulava, conduzia, gritava, incutia calculada energia, performando, ele próprio fora de quadro, o que esperava dos atores em quadro.

Assim, ao contrário das poses clássicas de divulgação e dos stills de cenas específicas dessa ou daquela sequência do filme, as fotografias de cena de Paul Ronald, e dos outros fotógrafos com menor acuidade, além de registrarem intervalos de filmagem, procuram apreender essa potência de movimento que irá construir a “imago” da personagem-tipo do ator ou atriz. O termo, criado em 1912 por Carl Gustav Jung, e refinado por Melanie Klein em seus estudos sobre a infância, dá conta da ambição felliniana de distorcer a realidade e moldá-la segundo pulsões de seu inconsciente e que remontam às incompletudes de seu passado, agora redesenhadas como uma imensa galeria de possibilidades concretas, sobretudo em torno de si mesmo. É por isso que a recorrência da presença de Marcelo Mastroianni na filmografia de Fellini ganha aqui a mesma intensidade, seguindo sempre como seu persistente alter ego ideal, estando o arquétipo feminino bem mais nuançado e distribuído como tipologia visual e social.

O visitante deve investigar cada imagem/imago não como se fosse uma pintura/tradução dos artistas/personagens, mas como um fotograma que mentalmente vai se inserir no movimento pressuposto da cena que devemos nós mesmos criar. Devemos preencher o antes e o depois da pose congelada e apreender a potência sugerida, chegando assim à solução do enigma felliniano. A todos e todas, uma boa investigação.

Hernani Heffner

Curador



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