Temporariamente suspensa

Fernando Cocchiarale e Fernanda Lopes
curadoria

Lei de Incentivo à Cultura
Mantenedores do MAM Rio: Itaú, Ternium, Petrobras
Secretaria Especial da Cultura, Ministério da Cidadania, Governo Federal

POÇA/POSSA Ana Paula Oliveira

Pensada especialmente para o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, a exposição “Poça/Possa” é a primeira de Ana Paula Oliveira na cidade. Ao longo de pouco mais de duas décadas, a artista mineira radicada em São Paulo vem construindo uma produção interessada em discutir questões caras ao pensamento escultórico. Peso, estrutura, equilíbrio, massa, relação com o espaço e com a arquitetura, além da presença física do espectador são alguns dos princípios que norteiam o uso de materiais tão comuns quanto inusitados, como graxa, mármore, lente, pedras, casulos e borboletas, vidro, chumbo, sacos plásticos, peixes, dormentes, placas de ferro, borracha e sabão. É a ação da artista que faz com que matérias tão díspares, que parecem não combinar, passem a conviver, mesmo que de maneira forçada, criando uma relação que oscila entre instabilidade (algo que não se sustenta) e efemeridade (algo que está por vir).

No Salão Monumental do MAM Rio, conhecido por seus quase oito metros de altura, Ana Paula leva nosso olhar para o sentido contrário. O trabalho que dá nome à exposição se espalha pelo chão tomando posse do espaço e condicionando nossa movimentação por ele. Poça/Possa se estrutura a partir de quase 40 dormentes de madeira, desses que costumam ser usados como estacas improvisadas que escoram construções condenadas, prestes a ruir. Apoiados nas paredes e no chão do museu, eles pressionam as placas de vidro de dois metros de comprimento umas contra as outras formando grandes poças cheias de graxa. Materiais e ferramentas como borracha, sargentos, cunhas, argila e cabos de aço servem para ajudar que os vidros aguentem a pressão das duas toneladas de material viscoso.

O outro trabalho, que completa a mostra, segue a mesma lógica. Subserviência é um desenho de observação em nanquim de umas das palmeiras imperiais do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Feito em escala natural, ele tem 20 metros de extensão (o mesmo tamanho da palmeira retratada), e está fixado ao longo de um dos painéis expositivos. Sua posição como desenho (na horizontal) nos faz pensar em uma árvore tombada — o que não corresponde à realidade, que deveria ser a grande preocupação de um desenho de observação. A palmeira se encontra verticalmente imponente no Jardim Botânico. Ao mesmo tempo, ainda pensando na lógica de documentação desse tipo de desenho, causa estranhamento só ser possível ver a parte do desenho que cabe no painel. O que sobra se desdobra para o espaço, quase como uma nova escultura de papel, escondendo o restante da imagem.

Tanto o desenho quanto a instalação revelam ainda uma ressonância específica com o espaço do museu. Se os arquitetos modernos tinham como um de seus princípios o uso de materiais simples em seu estado bruto (deixando de lado uma arquitetura e um pensamento estético como um todo que prezava o ornamento, levando os materiais a “fingirem” ser o que não eram), a intervenção proposta pela artista para esta grande caixa de concreto, vidro e aço projetada por Affonso Reidy também é motivada pelo interesse na matéria crua, que não “finge” ser aquilo que não é. Dessa maneira, o trabalho de Ana Paula Oliveira parece ecoar no edifício do MAM Rio. E vice-versa.

Ao apresentar ao público um projeto desenvolvido especialmente para o museu, o MAM Rio reforça e renova sua vocação histórica, como uma das instituições culturais mais atuantes no Brasil, interessada no estímulo, mapeamento e difusão da arte brasileira contemporânea.

Fernando Cocchiarale e Fernanda Lopes
curadoria


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