16 de abril de 2019

O plano arquitetônico do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro

Affonso Eduardo Reidy

 

Nos últimos quarenta anos transformou-se muito o antigo conceito de Museu. Este deixou de ser um organismo passivo para assumir uma importante função educativa e um alto significado social, tornando acessível ao público o conhecimento e a compreensão das mais marcantes manifestações da criação artística universal. Ao mesmo tempo, proporciona um treinamento adequado a um contingente de artistas que, perfeitamente integrados no espírito de sua época, poderão influir decisivamente na melhoria dos padrões de qualidade da produção industrial.

Mas, não foi apenas o antigo conceito de Museu que se transformou. A própria noção do espaço arquitetural modificou-se. O desenvolvimento das novas técnicas de construção deram lugar à “estrutura independente” e como consequência ao “plano livre”, isto é, a função portanto passou a ser exercida exclusivamente pelas colunas; as paredes, liberadas da sua antiga responsabilidade estrutural, passaram a desempenhar então, com uma liberdade nunca antes imaginada, o papel de simples elementos de vedação: placas leves, de diferentes materiais, livremente dispostas, oferecendo as mais amplas possibilidades na ordenação dos espaços. Surgiu assim um novo conceito do espaço arquitetural o espaço fluente, canalizado, que veio substituir a antiga noção do espaço confinado dentro dos limites de um compartimento cúbico.

A correspondência entre a obra arquitetural e o ambiente físico que a envolve é uma questão da maior importância. No caso do edifício do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro essa condição adquire ainda maior vulto, dada a situação privilegiada do local em que está sendo construído. Em pleno coração da cidade, ao meio de uma extensa área que num futuro próximo será um belo parque público, debruça-se sobre o mar, frente à entrada da barra, rodeado pela mais bela paisagem do mundo.

Foi preocupação constante do arquiteto evitar, tanto quanto possível, que o edifício viesse a constituir um elemento perturbador da paisagem, entrando em conflito com a natureza. Daí o partido adotado, com o predomínio da linha horizontal em contraposição ao movimentado perfil das montanhas, bem como o emprego de uma estrutura extremamente vazada e transparente, que permitirá manter a continuidade dos jardins até o mar, através do próprio edifício, o qual deixará livre uma parte apreciável do pavimento térreo. Em lugar de confinar as obras de arte entre quatro paredes, num absoluto isolamento do mundo exterior, foi adotada uma solução aberta, em que a natureza circundante participasse do espetáculo oferecido ao visitante do Museu.

 

A ESTRUTURA

A ação eminentemente dinâmica do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, abrangendo todas as manifestações das artes visuais dos nossos dias requer uma estrutura arquitetural que lhe proporcione o máximo de flexibilidade na utilização dos espaços. Esta estrutura possibilita ora o uso de grandes áreas, ora a formação de pequenas salas onde determinadas obras possam ser contempladas em ambiente íntimo. A Galeria de Exposições do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro foi projetada com esse objetivo: ocupa uma área de 130 metros de extensão por 26 metros de largura, inteiramente livre de colunas, de modo a oferecer absoluta liberdade na arrumação das exposições. Essa área terá pé direito variável: partes com 8 metros, parte com 6,40 metros e o restante com 3,60 metros de altura.

 

A ILUMINAÇÃO

A iluminação natural confere um sentido de vida e de movimento aos espaços, beneficiando as obras expostas da variedade de sensações que a luz diurna proporciona. Quando zenital, a luz é difusa e uniforme; não há sombras, não há relevo, o ambiente torna-se neutro, inexpressivo. Quando lateral dá direção ao espaço e relevo aos objetos proporcionando ainda ao visitante a possibilidade de contato visual com o exterior. Todavia, um sistema rígido e exclusivo limitaria a liberdade de mostrar, sob as melhores condições, obras que eventualmente possam vir a ser mais valorizadas com iluminação zenital ou mesmo artificial.

A Galeria de Exposições do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, nos trechos de menor pé direito terá iluminação lateral e nos trechos de pé direito duplo terá iluminação zenital, através de placas difusoras de vinyl.

O fato da luz natural, de um modo geral, apresentar vantagens sobre a luz artificial, na apresentação das obras, não diminui a importância do que esta última representa para o Museu de hoje. A iluminação artificial é evidentemente indispensável, não só para a noite, como para a exibição de objetos que possam ser prejudicados pela luz solar, como desenhos, tecidos, etc.

A qualidade da luz a ser empregada é um outro ponto de importância num museu de arte. A luz incandescente e rica em raios vermelhos e alaranjados que modificam o aspecto de certas cores. A luz fluorescente, por seu lado, provoca sensação de frieza e altera igualmente o aspecto das cores. A combinação de ambas, porém, permitirá uma grande aproximação ao efeito da luz solar.

Para o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro foi projetado um sistema muito flexível: o teto da Galeria de Exposições será guarnecido com placas translúcidas de um plástico de vinyl, as quais difundirão a luz emitida por tubos fluorescentes, proporcionando uma iluminação suave ao ambiente. A superfície luminosa assim constituída, será interrompida de dois em dois metros por rasgos transversais onde serão fixados refletores de luz incandescente, equipados com lentes apropriadas, os quais serão dirigidos exatamente para os pontos em que se fizer necessária a iluminação, sem que esta produza reflexos ou ofuscamento aos visitantes.

Todo o Segundo Pavimento do corpo central do edifício será destinado a exposições bem como uma parte do terceiro pavimento onde ficarão situados, ainda, um auditório com 200 lugares, com equipamento para projeções cinematográficas, filmoteca, biblioteca, discoteca, os serviços de administração e direção do Museu e o depósito para a guarda das telas não expostas. Esse depósito, onde as obras deverão ser conservadas em perfeita segurança, terá condições constantes de temperatura e umidade, ficando completamente isolado das variações atmosféricas do exterior. As telas serão fixadas em trainéis leves, de correr, ligeiramente afastados uns dos outros, permitindo dessa forma, reunir em um espaço reduzido um grande número de telas e assegurando-lhes perfeitas condições de ventilação e facilidade para exame dos interessados.

 

SERVIÇOS E INSTALAÇÕES AUXILIARES

Ocupando uma parte do pavimento térreo e o subsolo do corpo mais baixo do edifício, estão os serviços e instalações auxiliares do Museu, compreendendo a entrada de serviço, os locais para a desembalagem e a identificação e registro das obras, a expedição, os depósitos, as oficinas e os laboratórios, a sala de gravura e um grande salão onde serão preparadas as exposições.

 

ESCOLA TÉCNICA DE CRIAÇÃO

Ainda no pavimento térreo do mesmo corpo, funcionará a Escola Técnica de Criação. Suas instalações compreendem, além dos locais destinados aos serviços administrativos, salas de aulas e ateliers diversos, laboratório fotográfico, tipografia, clicheria, encadernação, cantina para os estudantes, etc. No Segundo Pavimento desse corpo ficarão o restaurante e o terraço-jardim, que se comunicam com a galeria de exposições.

 

O TEATRO DO MUSEU

Na extremidade leste do conjunto ficará situado o Teatro, com 1.000 lugares. O palco terá uma largura disponível de 50 metros, 20 metros de profundidade e 20 metros de altura livre até o urdimento. A construção cênica baseia-se num sistema de carros movimentados e1etricamente, que se deslocarão para os espaços laterais e do fundo do palco. A boca de cena terá 7,50 metros de altura e 12 metros de largura, podendo chegar a 16 metros em caso de abertura total para a realização de concertos sinfônicos.

 

Fonte
REIDY, Affonso Eduardo. O plano arquitetônico do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, n.17, p. [13-18], jan. 1959. Boletim. Acervo MAM Rio.

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