Dia Mundial da Preservação Audiovisual
"Traga o passado através de sons e imagens em movimento"

Dia Mundial da Preservação Audiovisual

A Cinemateca do MAM apresenta dia 25 de outubro para a comemoração do Dia Mundial da Preservação Audiovisual de 2019 uma incursão à memória de um dos maiores exibidores cinematográficos da cidade do Rio de janeiro, Vital Ramos de Castro.
O evento abrangerá a exibição e um fragmento do longa metragem Voyage au Brésil, de 1927, com acompanhamento musical ao vivo, pela pianista Luiza Bertine, uma exposição fotográfica relativa aos familiares e às salas de exibição, e uma mesa com a participação do biógrafo Gustavo Pires Neto, do pesquisador musical Flávio Silva, da neta Maria Antonia Bebianno e do Conservador-Chefe da Cinemateca Hernani Heffner.
Tradicionalmente voltado para a memória fílmica, o evento deste ano procura chamar a atenção para outras dimensões da memória cinematográfica, como as salas de exibição, e as personalidades associadas a este mundo, muito menos conhecidos quer do grande público e até mesmo de especialistas. O trabalho de Vital Ramos de Castro marcou a paisagem urbana do Rio de Janeiro, na qual remanescem alguns exemplos marcantes como o prédio do Cine Plaza e o antigo Cinema Colonial, atual Sala Cecília Meireles. Nesse sentido participa de uma história social, cultural, geográfica e cinematográfica que precisa abrir-se cada vez mais a outras dimensões do passado.

A celebração, instituída pela Unesco em comemoração à redação e aprovação do documento Recomendação para a Salvaguarda e Preservação de Imagens em Movimento, pela 21ª. Conferência Geral da Organização, chama a atenção para o perigo constante em que se encontra o patrimônio audiovisual brasileiro e mundial e para as ações para a sua proteção e conservação, ressaltando o trabalho de profissionais e instituições que atuam na área. A data escolhida pela Unesco para as comemorações anuais foi o dia 27 de outubro.
A sessão é dedicada a Claudine de Castro (IN MEMORIAM)

Hernani Heffner
Conservador-Chefe

 

Vital Ramos de Castro

(Areias, 29 de maio de 1879 – Rio de Janeiro, 24 de novembro de 1958)

Empresário do ramo cinematográfico, Vital Ramos de Castro foi um dos grandes nomes do cinema no Rio de Janeiro na primeira metade do século XX. Ao longo de quase oito décadas de vida, desempenhou diferentes atividades, principalmente a de exibidor, sendo proprietário de vários cinemas. Da simplicidade de seu pioneiro Cinema Popular, inaugurado na primeira década do século e conhecido como “Poeira”, até o requinte discreto do Cine Plaza em frente ao Passeio Público, formou um grande circuito independente que incluiria, por exemplo, o Cinema Olinda, que foi a maior sala de cinema que já existiu no Rio de Janeiro.

Vital nasceu na Fazenda Cachoeira no município de Areias, onde foi criado pelo pai Miguel José de Castro, juiz de direito, e pela madrasta Rita Quartim. A mãe de Vital, Porcina Nogueira Ramos, filha de cafeicultores de Bananal, morreu quando ele tinha poucos meses de vida, possivelmente em decorrência de complicações derivadas do parto. Por volta da virada do século e após a morte de seu pai, Vital, seus irmãos e a madrasta Rita transferem-se para a cidade de São Paulo. Ali, por um breve período, Vital foi negociante de cereais, tendo como sócio o mineiro Juvenal Moura. Já com vinte e cinco anos, Vital se casa com a filha de seu sócio, Maria da Glória Moura, quem seria sua companheira durante toda a vida e com quem teria seis filhos. O casal não permaneceria por muito tempo em São Paulo, pois logo se mudaria para o Rio de Janeiro.

No começo do século XX, Vital e Maria da Glória se instalam no Rio, morando em uma casa na rua Teófilo Otoni. Estabelece-se como comerciante no Beco das Cancelas, via que ainda conserva com seus grandes blocos de pedra e calhas de ferro trabalhado. Em 1908, Vital Ramos de Castro dá o passo decisivo que transformaria a sua vida abrindo seu primeiro cinema no Rio de Janeiro, o Cinematógrafo Popular na rua Marechal Floriano. Inicialmente pequeno, com apenas 75 lugares, e com preços acessíveis, o negócio era administrado de maneira próxima por Vital, que desempenhava múltiplas funções, incluindo a de abordar transeuntes para que entrassem no cinema. Era época do cinema mudo e Maria da Glória vendia os ingressos e suas irmãs Gilda e Edith revezam-se ao piano durante as projeções no início do negócio.

Os preços módicos das entradas do Popular tinham pouca concorrência em seu segmento e como resultado o público não parava de crescer, levando a contínuas ampliações do espaço para albergar mais e mais lugares. O espaço foi sendo ampliado, tornando-se o maior cinema carioca no começo do século XX, chegando a ter 2.000 lugares.

Com o contínuo sucesso nos negócios e o aumento da família, o casal se muda para uma casa na rua São Francisco Xavier e em seguida para a rua Corrêa Dutra, no Flamengo (a família ainda residiria na Praia do Russel e na rua Paissandu, antes de mandar construir o edifício do Plaza). Vital e Maria da Glória tiveram seis filhos – Mário, Maria Antônia, Vital (Beca), Ary, Maria Luiza (Luizinha) e Andrew (Jorge). A pequena Maria Antônia ainda criança se revelaria um prodígio ao piano, algo realmente excepcional. Com apenas cinco anos de idade já apresentava concertos públicos. O encantamento do pai com a genialidade da filha era absoluto, algo que influenciaria o destino de toda a família.

Corria o ano de 1917 e Vital decide incentivar a carreira de concertista da filha então com sete anos, organizando turnês internacionais e acompanhando-a para que ela apresentasse concertos em Buenos Aires, Montevidéu e Nova York. Vital passa então a dividir o seu tempo entre os cinemas e a carreira da filha. Convencido a buscar uma melhor formação e possibilidades de carreira para Maria Antônia no exterior, a família parte do Rio de Janeiro em 1919 com destino à cidade de Nova York. Instalaram-se por uma temporada no Hotel St Andrews, perto das grandes e modernas salas de cinema da Broadway (Maria da Glória deu à luz a um dos seus filhos na cidade, a quem batizou com o nome do hotel, Andrew). No entanto, o rigoroso inverno novayorkino desanimou a família a continuar na cidade e logo mudaram-se mais uma vez. Guiando-se novamente pelo melhor destino para que Maria Antônia se desenvolvesse enquanto concertista, tomaram um navio rumo à França.

Em 1919, Vital instalou-se junto com a sua família em Paris, sendo que Maria Antônia logo foi aceita por convite para estudar piano no prestigiado Conservatoire de Paris. Durante os doze anos seguintes, Vital dividiria seu tempo entre Paris e o Rio de Janeiro, passando cerca de seis meses em cada cidade. Voltava a Paris sempre que possível, para ver sua filha Maria Antônia. Vital adquiriu uma grande casa na Rue de Prony, nas imediações do Parc Monceau, comprando o mobiliário art déco da casa na Exposition Internationale des Arts Décoratifs et Industriels Modernes de 1925. A casa se tornaria um ponto de encontro e de saraus musicais para artistas brasileiros radicados em Paris, como o compositor Heitor Villa-Lobos, o maestro Sousa Lima e Burle Marx. O seu círculo de amizades na capital parisiense incluía também empresários brasileiros de passagem pela cidade e o embaixador Luís Martins de Souza Dantas. Em Paris, Vital lançou-se a outras atividades relacionadas ao cinema e às artes. Em 1924, idealizou, escreveu o roteiro, fez os cenários e produziu o filme Paris la Nuit com direção de Émile Keppens, rodado em Paris com atores franceses, considerado uma “homenagem à Cidade Luz”, com cenas da vida noturna da cidade, Montmartre e seus cabarets. O filme foi apresentado no dia 31 de maio na Salle Marivaux, considerada a primeira vez que um cineasta brasileiro realiza um filme na França com artistas e estúdio franceses. Em 8 de setembro do mesmo ano, Paris la Nuit foi apresentado no Cine Palais, no Rio de Janeiro.

Em 1926, Vital financiou a montagem do bailado Les pommes du Voisin de Elpídio Pereira para a reabertura da nova temporada no Théatre de la Gaité Lyrique de Paris. Embora o espetáculo não tenha contado com a célebre bailarina Anna Pavlova como insistentemente tentado por Vital, foi um sucesso de público, sendo representado setenta e seis vezes no referido teatro.

Em sua fase parisiense, Vital Ramos de Castro também organizou um programa na Salle Gaveau no qual foi apresentado em março de 1927 o filme Voyage au Brésil, em que se enaltecia a diversidade cultural do país. Vital reuniu mais de dez mil metros de filmes de diversas fontes no Brasil, mostrando as várias regiões do Norte e do Sul, a natureza, florestas, os costumes, o carnaval, que em conjunto buscavam tornar conhecidas as riquezas naturais e culturais brasileiras no exterior. Segundo o próprio cineasta: “coisas curiosíssimas que hão de surpreender os que desconhecem absolutamente a nossa encantadora terra. (…) Tudo o que ela possui de realmente belo (…) eu procurei reunir na película que organizei”. A trilha sonora também expressava a produção artística brasileira, apresentando vinte e seis compositores, executada pela orquestra dos Concerts Colonne, sob regência de Souza Lima e Villa-Lobos: “o primeiro para a parte erudita, o segundo para a popular”. De acordo com o maestro Souza Lima, o filme mostrava o Brasil em seus múltiplos aspectos: “(…) Foi uma demonstração da nossa grandeza, de nossa pujança em todos os sentidos (…), realmente, uma iniciativa maravilhosa e do melhor resultado quanto à divulgação do nosso país”. Após a premiére francesa, Voyage au Brésil foi apresentado em 1º de setembro de 1927 na reinauguração e permanecendo em cartaz por duas semanas no Cine Parisiense no Rio de Janeiro, recém adquirido por Vital: “os mais interessantes episódios deste filme (…) foram os flagrantes do carnaval do Rio, apresentado em cores, pelo processo afamado da Casa Pathé, de Paris; a luta terrível entre o touro e o jaguar e da sucuri com a capivara”. O filme também foi apresentado em Madri e em 1928, Voyage au Brésil voltou a ser apresentado em Paris, desta vez no Teatro Mogador.

A administração dos cinemas no período em que Vital estava no exterior, então sob o nome Agencia Cinematographica Popular, coube ao seu cunhado Orlando Moura. Na década de vinte, seus negócios com cinema continuaram em expansão. Vital compraria os cinemas Mascote,Excelsior e o Primor. Em 1927 adquire aquele que era o mais antigo cinema em funcionamento no Rio de Janeiro, o Cine Parisiense, tradicional sala de exibição aberta em 1907 com o nome de Grande Cinematógrafo Parisiense. O edifício do cinema seria demolido e reconstruído a partir de 1928 (em 1945, o edifício seria novamente reformado, pelo arquiteto Georges Massé, genro de Vital). Em 1928, Vital adquire o Cine Paris, na Praça Tiradentes. Vital adquiriria outros cinemas nos anos seguintes. Em setembro de 1929, adquire um projetor Simplex Pacent, com sistema de sincronização que permite a exibição de filmes falados, modelo utilizado no Brasil pela primeira vez no Cine Popular.

A partir do final da década de vinte, Vital compartilharia com o seu filho primogênito Mário Moura de Castro a administração dos cinemas. Mário seria por muito tempo o braço direito de Vital nos cinemas. Com o passar do tempo, também os seus outros filhos desempenhariam funções em seus negócios no ramo dos cinemas. Mário conheceu e se casou em Paris com Nenette Tissier, mas o casal logo decidiu residir no Rio de Janeiro. Em 1931, ainda jovem, mas já consagrada e premiada como pianista internacionalmente, Maria Antônia casa-se com o arquiteto francês Georges Massé, mas o casal decide permanecer em Paris, residindo na casa da Rue de Prony. A partir de então, as viagens de Vital a Paris passariam a ser bem menos frequentes.

Durante os anos trinta, Vital volta a dedicar-se com maior intensidade a expandir o seu circuito de cinemas no Rio de Janeiro, sem deixar de envolver-se com o mundo artístico que o circundava. Em 1932, dirigiu e produziu aquele que seria o primeiro filme com a atriz e cantora Carmen Miranda, O Carnaval Cantado. O documentário de 40 minutos utilizava o sistema Vitaphone de sonorização. Apresenta cenas do carnaval de rua com Carmen Miranda interpretando o samba Bamboleô, de André Filho. O filme, que contou com o apoio de Ademar Gonzaga, da Cinédia, ainda se destaca por registrar as primeiras imagens noturnas da cidade do Rio de Janeiro, graças à utilização de refletores do exército. No ano seguinte, produz O Carnaval Cantado de 1933, usando o sistema Movietone, lançado em 1º de março de 1933.

Em 1936, inaugura o Cinema Plaza, em uma localização privilegiada em frente ao Passeio Público, primeiro jardim público do Brasil, por onde passeava a sociedade carioca. O Plaza foi idealizado para ser mais do que apenas um cinema. O edifício tinha vários andares, com apartamentos com vista para o Passeio Público nos andares superiores e o Cinema Plaza no térreo. No térreo, o Cine Plaza, com mais de mil lugares representaria um salto de escala nos negócios de Vital Ramos de Castro, que entraria para a cadeia dos grandes cinemas. O Plaza passaria a ser o cinema “lançador” do Circuito V R Castro. A Linha do Plaza se tornaria o mais popular circuito independente de cinema do Rio de Janeiro na década seguinte. A Linha do Plaza, tinha contratos de exibição com produtoras nacionais, como a Flama de Moacir Fenelon, e de Hollywood, como Disney, Paramount, Columbia e Universal. Foi ainda exibidora exclusiva dos filmes da Companhia RKO Radio Pictures no Brasil.

No Plaza residiriam alguns dos filhos de Vital com suas respectivas famílias nos espaçosos apartamentos dos andares superiores. Vital reservou para si o apartamento do 12º andar. No quarto andar passaria a funcionar a administração e escritórios de suas empresas. Ali recolhiam a féria dos diversos cinemas, faziam-se contatos com companhias internacionais, planejavam-se as obras e manutenção dos cinemas, editavam-se filmes e também se recebiam visitantes, às vezes ilustres. Uma grande quantidade de personalidades ligadas ao mundo do cinema passou por ali, incluídos empresários, políticos, cantores, atores, atrizes e vedetes. Os filhos participavam destas atividades, encontravam-se no escritório do quarto andar, despachavam com Vital, almoçavam todos juntos no décimo segundo andar e depois iam assistir aos filmes nas companhias para escolher a programação. Maria da Glória comandava grandes almoços dos quais participavam a família e por vezes algum convidado ilustre. Após a morte de Maria da Glória, a função seria desempenhada por sua filha Maria Luiza. A intensa atividade relacionada ao cinema fez que a família Castro progressivamente desfrutasse de prestígio na sociedade carioca, frequentando os shows dos cassinos e os grandes salões do Rio de Janeiro.

Em 1940, Vital constrói o monumental Cine Olinda, na Praça Saez Peña, que foi o maior cinema da história da exibição carioca, com 3500 lugares. O empreendimento era moderno, com ar-condicionado e os mais sofisticados instrumentos de projeção e som na América do Sul até o momento com tecnologias importadas. A decoração luxuosa, com colunas e piso de mármore, inaugurava uma nova fase do Circuito Vital Ramos de Castro, direcionada também a atingir expectadores de maior poder aquisitivo. A arquitetura do Cine Olinda seguia um estilo art déco simplificado, marca de seus cinemas.

Entre os diversos cinemas que Vital e sua família possuíram, destacam-se ainda: O Cinema Colonial (arrendado), com 1578 lugares, em funcionamento entre 1941 e 1961 (posteriormente se tornou a Sala de Teatro Cecília Meirelles); O Cine Ritz (de seu filho Mário), em Copacabana, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana; Entre 1942 e 1958, o Cinema Astoria (de seu filho Ary), na Rua Visconde de Pirajá, nº595, com 2147 lugares; E entre 1937 e 1944 foi concessionário do antigo Teatro Fênix onde abriu o Cine Ópera.

A II Guerra Mundial e a ocupação nazista alterariam os planos da pianista Maria Antônia e seu marido. Georges não pôde sair da França devido à guerra e Maria Antônia decidiu permanecer no país. Passada a guerra, tentaram estabelecer-se no Rio de Janeiro, mas a pianista sofria então de tuberculose. A morte de Maria Antônia de Castro em Leysin na Suíça em 1946 com apenas trinta e cinco anos representou um triste capítulo na vida dos membros da família Castro. Após a morte de Maria Antônia, seu filho Bernard nascido na França viria morar com o avô Vital no Rio de Janeiro.

Vital Ramos de Castro foi conhecido no meio cinematográfico como Capitão, assim aparecia o seu nome nos jornais e é lembrado por muitos cariocas. Mas Vital era chamado carinhosamente de “Dindinho” por seus netos, com quem passava férias em suas casas em Petrópolis ou na Praia Grossa de Paquetá. Vital morreu em 1958, em São Lourenço, destino termal mineiro que ele adorava. Sua neta mais velha, Claudine, realizou pesquisas com a intenção de preparar uma biografia sobre o avô. No entanto, Claudine veio a falecer antes de que a obra fosse concluída.

Em abril de 2017, após um longo período desocupado, foi reinaugurado o edifício do antigo Cine Plaza, renomeado comoBVEP Nigri Plaza. O retrofit do edifício manteve a fachada e o foyer, agora restaurados, e a antiga sala de cinema foi convertida em um auditório. Durante a solenidade de reinauguração do edifício, a memória de Vital Ramos de Castro foi resgatada e enaltecida.

 

Gustavo Pires de Andrade Neto


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