23 de maio de 2018

Fundado em 1948, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro – uma sociedade civil sem fins lucrativos – logo se tornou uma das poucas instituições culturais do país em que as vanguardas brasileiras do pós-guerra encontraram estímulo para florescer. Em 70 anos de história, dezenas de eventos e exposições seminais da arte moderna e contemporânea brasileira ocorreram no MAM Rio: a I Exposição Neoconcreta (1959), Opinião 65 (1965), Opinião 66 (1966), Nova Objetividade Brasileira (1967), Salão da Bússola (1969), Salões de Verão (1969/74) e Arte Agora III – América Latina: geometria sensível (1978). Grandes artistas, portanto, expuseram no museu ou nele tiveram experiências fundamentais para o desenvolvimento de suas obras.Institucionalmente aberto à experimentação, o MAM Rio promoveu muitos projetos renovadores ao longo de sua história, como o Ateliê livre de Gravura (1959), a Unidade Experimental (1969) e os Domingos da Criação (1971), ambos idealizados por Frederico Morais; além da Área Experimental, programa de exposições que, entre 1975 e 1978, apresentou ao público a produção brasileira emergente daquele momento, e o Galpão das Artes, durante os anos 1990.

Hoje, o MAM Rio tem um dos mais importantes acervos de arte moderna e contemporânea da América Latina, o que reflete sua trajetória interessada não só pela história da arte, em especial da arte brasileira, mas também na jovem produção contemporânea. Esse acervo é formado por obras pertencentes a três coleções de procedências diversas: a coleção própria do museu − refeita, por meio de doações e aquisições a partir do grande incêndio que, em 1978, destruiu seu prédio e quase todas as obras nele guardadas − que reúne importantes trabalhos de artistas nacionais, mas se destaca por abrigar a maioria das obras internacionais da instituição; a coleção Gilberto Chateaubriand, que nos permite traçar um panorama significativo da arte brasileira desde a emergência do modernismo no país até à produção contemporânea cedida ao museu em regime de comodato; e a coleção Joaquim Paiva, dedicada exclusivamente à fotografia de nomes de diferentes gerações e nacionalidades.

Superar tal tripartição patrimonial tornou-se, a partir de 2016, um caminho investigativo prioritário para a curadoria das mostras das coleções de arte da instituição. Superação que, no entanto, jamais cogitou o esquecimento de que esses acervos foram formados separadamente ao longo de períodos diversos e, por isso, possuem perfis que os identificam e despertam nossa atenção específica. Como promover a interposição curatorial e expositiva de três coleções importantes, cujos perfis, contudo, hoje não mais favorecem a pretensão enciclopédica de mapeamento exaustivo que referencia os acervos de outros museus do mundo? Como converter tais limitações em alternativas curatoriais consistentes às exposições montadas segundo os discursos hegemônicos da história da arte euro-americana, sem uma coleção que os justifique plenamente?

Ao contrário do que possam parecer à primeira vista, as lacunas acima apontadas não são impeditivas. Contudo, os desafios aqui são maiores, já que não se trata apenas de contrapor projetos contradiscursivos àqueles de um universalismo que nos marginaliza. Integram nossa coleção obras estrangeiras seminais, remanescentes do projeto de implantar no Rio de Janeiro, então capital do país, um museu de arte moderna, com base na experiência norte-americana. O MAM Rio tem obras de artistas estrangeiros modernos e contemporâneos remanescentes da época de sua fundação — como Arp, Baziotes, Ben Nicholson, Brancusi, Bruno Munari, César, Cruz-Diez, Léger, Enio Iommi, Fontana, Giacometti, Lipschitz, Max Bill, Motherwell, Soulages, Hartung, Gerhard Richter, Wolf Vostell e Keith Haring, dentre muitos outros. São artistas raros em coleções públicas brasileiras, quase todas concentradas em São Paulo e no Rio de Janeiro, fator que já justificaria, em si mesmo, sua exposição.

Com base na permanente rearticulação desses três acervos que, juntos, somam mais de 16 mil obras — entre desenhos, gravuras, fotografias, pinturas, esculturas, vídeos, instalações, objetos, performances, livros de artista e intervenções — é possível, portanto, produzir recortes e combinações da produção artística brasileira com a produção moderna europeia, desde o começo do século 20 até os dias de hoje.

Outras rearticulações estão também objetivadas na montagem e na edição das obras nos espaços expositivos: 1) em lugar de um critério único (o da história da arte, por exemplo), cuja função seria a de emprestar coerência ao conjunto de uma exposição, a conexão das obras é feita por correlação de afinidades estabelecidas, caso a caso, formando uma espécie de rede de significados diversos; 2) as obras tampouco estão agrupadas com base em técnicas, materiais, temas, mídias, linguagens, em cores, formas, objetos ou imagens.

Todas essas afinidades podem estar simultaneamente acionadas para tecer a rede sintático-semântica que constitui determinada exposição, decorrente de correlações provisórias, que produzem a cada mostra um novo e mesmo acervo hibridizado, cujas combinações são mais potentes que suas qualidades singulares. Essa repotencialização do acervo é também observávelna programação do próprio museu que, além de exposições de sua coleção no terceiro piso, mantém aberto o espaço para mostras da produção contemporânea e histórica, nacional e internacional. Palestras, seminários e conversas abertas ao público compõem e complementam essas atividades, indicando o diálogo como dispositivo potente para construção do pensamento crítico e da investigação plástica e poética.

Fernando Cocchiarale
Fernanda Lopes
Curadoria

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